sábado, 28 de novembro de 2009

O TEATRO-DEBATE: um dispositivo para o trabalho com grupos

1. O que é teatro espontâneo

O teatro espontâneo, enquanto manifestação artística situada no campo das artes cênicas, caracteriza-se pela apresentação única de uma produção dramatúrgica improvisada, com participação da platéia na formulação do texto. O público fornece a matéria prima, na forma de relatos de histórias da vida real ou francamente imaginadas, conteúdos emocionais e diretrizes temáticas. A criação do texto final é feita pelos atores, durante a própria representação.
Entre seus objetivos se destaca a própria produção artística como oportunidade de desenvolvimento humano. Ao facilitar a expressão criativa da subjetividade coletiva, de conflitos, desejos, pensamentos, sentimentos, fantasias, através de histórias, contadas ou recontadas cenicamente, proporciona uma valorização da cultura dos participantes e, mais que isso, uma validação existencial que é a base para a construção de relações humanas mais saudáveis.

2. Formatos do teatro espontâneo

Vários são os formatos adotados tanto para o processo criativo quanto para a produção propriamente dita. Embora se atribua a J.L.Moreno o pioneirismo nessa modalidade teatral, não existem registros históricos que esclareçam como ele trabalhava e os primeiros esforços no sentido de recuperar sua proposta inicial tomaram como base o psicodrama, que é um desdobramento e uma aplicação prática do teatro espontâneo.
Por outro lado, a maior parte das iniciativas que podem ser enquadradas dentro dessa definição de teatro espontâneo, surgiu de forma autônoma, em diversos momentos e em diversos lugares, sem vínculo direto com o teatro moreniano.
Acresce que mesmo essa atribuição de autoria pode ser questionada, na medida em que a história do teatro, através dos séculos, mostra experiências as mais diversas, em que aparecem as principais características do teatro de improviso.
Assim, o campo está composto por uma extensa gama de dispositivos, cujos idealizadores e praticantes nem sempre se reconhecem como teatristas espontâneos, desconhecendo mesmo a existência dessa categoria. Pode-se alinhar, a título de exemplificação algumas das técnicas que integram a obra de Boal, a peça didática de Brecht, o playback theater, a dramaterapia, a multiplicação dramática de Kesselman e Pavlovsky, cada qual com inúmeras variações, ao gosto de cada diretor e coerentemente com a espontaneidade/criatividade que se pretende favorecer.
O enquadramento dessas linhas de trabalho como teatro espontâneo é um ato discricionário de críticos e estudiosos, como ferramenta de investigação.

3. O que é teatro-debate

O teatro-debate é um dispositivo que surgiu como decorrência da busca de uma forma de trabalho que contemplasse algumas preocupações do grupo que o criou.
Esse grupo é a Companhia do Teatro Espontâneo, liderada por Moysés Aguiar, cuja sede se localiza na cidade brasileira de Campinas, Estado de São Paulo. O mérito dessa trupe é ter sido uma das impulsionadoras do teatro espontâneo no Brasil e, de alguma forma, na própria América Latina, tendo seu trabalho sido levado diretamente a Argentina, Paraguai, Bolívia, Chile, Equador e México. Integram seu portfólio apresentações em congressos internacionais e workshops na Inglaterra e Alemanha.
Em sua trajetória, desde sua fundação na cidade de São Paulo, no final da década de 1980, foi experimentando continuadamente as mais diversas formas de fazer teatro espontâneo.

4. Objetivos

A partir da experiência acumulada, sob constante avaliação, estabeleceram-se marcas e objetivos:
- a maior participação possível da platéia nas encenações improvisadas e, portanto, na elaboração da trama dramatúrgica;
- um padrão estético cada vez mais elevado, a despeito da falta de treino específico dos atores leigos, advindos da platéia; de modo inclusive a superar o mito da inferioridade desse tipo de teatro em relação às modalidades mais tradicionais;
- a concretização das propostas de Grotowski, de um teatro-pobre, ou seja, capaz de concretizar-se sem os complexos recursos de música, iluminação, figurino etc.;
- a potencialização do papel didático e facilitador dos atores “profissionais”, membros da trupe, na sua relação com os atores “leigos” oriundos da platéia;
- abertura para compreensão, aproveitamento e integração das diversas experiências de teatro espontâneo, em suas mais diferentes modalidades.


5. Roteiro da sessão

Em linhas gerais o dispositivo pode ser descrito da seguinte maneira:
• propõe-se ao grupo (que inclui platéia, atores, diretor etc.) a discussão de um tema;
• após um aquecimento, inicia-se o debate verbal;
• o debate verbal é interrompido, a intervalos, pelos atores, que dramatizam “cenas espelho;
• depois de um tempo, o diretor convida os membros da platéia a contracenarem com os atores nas “cenas espelho”;
• um tempo mais e o diretor propõe à platéia a dramatização de uma história improvisada, por eles criada e atuada.


6. Tema para o debate

O tema pode ser anunciado previamente; pode ser escolhido pelo cliente que contratou a apresentação, pela própria trupe ou, no momento mesmo da sessão, pelo grupo.
A vantagem de o tema constar da convocatória é funcionar como pré-aquecimento e deixar claro o objetivo do trabalho. Em termos práticos, facilita, porque o processo de escolha do tema, quando não definido com antecedência, consome uma boa parte do tempo, reduzindo a disponibilidade para as fases seguintes.
Por outro lado, a escolha pelos integrantes do grupo já formado e aquecido como tal pode representar o interesse legítimo do aqui-e-agora, o que implica algumas facilidades mais.
A primeira alternativa é preferível. A segunda tem-se mostrado mais apropriada no caso de oficinas didáticas, quando se pretende ensinar a fazer teatro-debate.

7. Warming up

O aquecimento do grupo foca alguns objetivos fundamentais. Primeiro, é preciso que os participantes se constituam como grupo, integrem-se e se voltem para a tarefa, que é o catalisador de sua identidade no aqui-e-agora.
Além disso, necessita apropriar-se do espaço onde vai atuar, experimentando sua relação com ele, investigando limites e potencialidades, liberando o corpo (voz, movimentos, deslocamentos, alcance, obstáculos internos e externos) para responder às necessidades que vão surgir no decorrer do trabalho.

8. Papéis: o diretor

Os papéis devem ser bem compreendidos e, no caso específico, é importante preparar para os papéis de debatedor, ator, dramaturgo e platéia.
Cabe ao diretor proporcionar o aquecimento, que não pode ser planejado em detalhes, com antecedência: o aquecimento é tanto melhor quanto mais espontâneas sejam as propostas do diretor, sensível às necessidades do grupo concreto, naquele momento.
Sua criatividade deve manifestar-se, até porque pretende contribuir para que se manifeste a dos demais participantes. Os objetivos do processo constituem uma referência que facilita a improvisação dos jogos que vão sendo propostos.
Ao diretor cabe também coordenar o debate. Suas intervenções são voltadas a dois objetivos básicos: a) estimular a ampliação do conhecimento coletivo, em termos de conteúdo, através de perguntas e comentários; e b) democratizar as oportunidades de participação, estimulando a capacidade de ouvir e levar em conta as opiniões alheias, a manifestação dos mais tímidos e o controle do tempo por parte dos mais loquazes.

9. Papéis: os atores profissionais

As cenas espelho são executadas inicialmente pelos atores profissionais. São cenas muito rápidas, não devem durar mais do que um minuto. Nelas, os atores expressam sua percepção do debate, tanto em termos da dinâmica sócio-emocional quanto da evolução do conteúdo. São cenas absolutamente improvisadas, a partir da ressonância, nos atores, do que está acontecendo. O objetivo é impactar a discussão, daí a busca constante de um padrão estético cada vez mais avançado, capaz de atingir esse objetivo.

10. Papéis: os atores da platéia

A incorporação de atores da platéia às cenas espelho proporciona a oportunidade de fazer a transição entre as encenações profissionais e a criação coletiva da etapa seguinte.
Ela abre espaço para a auto-expressão cênica do grupo. Ajuda a superar a cisão inicial entre os que falam verbalmente (as pessoas da platéia) e os que falam cenicamente (os atores, no palco).
Permite, por outro lado, desconstruir o caráter de “discurso competente” dos atores profissionais, como aqueles que detêm a verdade sobre o que acontece no grupo.
Além disso, embute um caráter pedagógico, pois nesse momento os atores profissionais assumem uma outra tarefa, que é a de facilitar a atuação dos atores supostamente não-profissionais. Preparam assim a platéia para apropriar-se do espaço cênico, na fase seguinte.

11. A cena final

Nessa última fase, a história criada tem a função de síntese e encerramento apoteótico do debate. Essa cena tem estrutura e timing mais flexíveis, pretende ser uma história completa, com começo, meio e fim, elaborada e encenada, de improviso, pelo público. Faz uma revisão analógica do que foi debatido e das novas perspectivas alcançadas na compreensão do tema.
De certa maneira, pode-se também dizer que esse momento de criação coletiva é o grande objetivo de tudo o que se fez anteriormente, a concretização mais desejável do projeto do teatro espontâneo.

12. Advertência

Uma palavra final: essa estrutura não é rígida. Ela apenas orienta o trabalho. Havendo necessidade, o diretor pode alterá-la, introduzindo novos procedimentos e novos recursos, tendo em vista, sempre, os objetivos propostos.

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